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Continuação ....Mulher lixo ...
Na segunda feira compreendi que estaríamos voltando a Como, onde eles residiam, arrumei a minhas poucas coisas, carreguei o carro com as bolsas deles e deixei a casa toda arrumadinha.
Mas não cheguei até a cidade de Como.
Meu patrão parou o carro na metade do caminho e me deixou na estação de trem de uma localidade pequena, não tinha mais ónibus e nem trem. Foi um choque quando ele parou o carro e disse:
-- Desce, procure um hotel para passar a noite, veja tem um bem ali...Minha família não gostou de como você trabalha, espere aqui nesse bar que vou mandar alguém lhe trazer o resto de sua bagagem esta bem?
-- Não esta bem não, o senhor tem que me pagar.
-- Não vou te pagar nada e se não estiver contente assim vai na "questura", "policia" você è clandestina e encontrarà o que merece là.
-- Se o senhor quiser vamos, posso ser clandestina, mas o senhor vai pagar uma multa por o trabalho escravo e as agressões que fui submetida por sua família.
-- E você será deportada estranjeira idiota.
Dizendo essas palavras jogou meu celular no chão e me deixou ali chorando dizendo para esperar no bar da estação que mandaria alguém trazer minhas coisas.
Desesperada mas confiante na justiça divina comprovei a existencia de Deus que manda sempre seus anjos nos amparar nos momentos mais difíceis de nossas vidas.
Um rapaz que estava nas proximidades e observou a cena se aproximou e disse assim:
-- Não seja boba, chame a policia, esse homem è um animal.
-- Não posso, não tenho documentos de estadia na Itália e não posso correr o risco de ser deportada, economizei dois anos para fazer essa viagem.
-- Também sou estranjeiro, posso entender seu problema, só você pode decidir, mas não è justo tanta humilhação.
Fui até o bar com o rapaz, pedi um chá de camomila para me acalmar e a senhora do bar que também assistiu a cena de longe depois de ouvir minha história igualmente me aconselhou a chamar a questura, mas tive medo. Não podia correr o risco de ser deportada.
Esperei até que um funcionario da empresa de meu patrão trouxesse minha bagagem, o que aconteceu somente depois de longas horas.
Fui aconselhada a não passar a noite no hotel indicado pelo meu ex-patrão, ele poderia me denunciar como clandestina.
Com o corpo todo dolorido pelas pancadas que levei, com a alma em farrapos pela humilhação e com um sentimento estranho e desconhecido até então, de impotência, permiti que o rapaz estranjeiro, do Marrocos me acompanhasse de carro até a estação de Como, onde poderia ir de trem novamente para a casa da amiga que me havia recebido na minha chegada em Itália.
-- Acho que è essa a nuvem de tristeza que você vê nos meus olhos.
-- Maria, sinceramente fico muito triste por ouvir sua historia e pensar que histórias como essa acontecem todos os dias com tantos estranjeiros na Europa. Mas porque você não fez uma permissão de estadia para turismo? Qualquer estranjeiro pode estar três meses na Itália, mas deve denunciar às autoridades sua chegada entre 8 dias e assim recebe uma permissão legalizada por três meses, se tivesse esse documento você poderia denunciar o ocorrido.
-- Não sabia disso.
-- Cara, são 16 anos que vivo na Itália e já vi muitas mudanças positivas acontecerem, tenho certeza que muitas ainda aconterceram, na minha opinião você poderia denunciar ainda esse crime, acho que seria a coisa mais justa e coerente a se fazer, mas creio que corre realmente o risco de ser deportada no momento da denuncia. Infelismente as autoridades italianas ainda não entenderam que o que gera desfrutamento e exploração de seres humanos è a vulnerabilidade da condição de clandestinidade. Desse modo a propria lei em vigor protege os exploradores.
-- A história è sempre a mesma, quem tem dinheiro tem o poder, pode bater, humilhar e não pagar quem tem menos, sinceramente o que me deixa muito triste è que esse monstro continuará a explorar outras pessoas.
-- Se você quiser posso falar com uma cara amiga italiana, ela è presidente de uma associação de Milão, è uma pessoa séria e poderá nos orientar.
-- Será que ela não vai me denunciar?
-- Absolutamente, seu objetivo è proteger as mulheres, de qualquer maneira se quiser posso telefonar e pedir sua opinião.
-- Gostaria. E assim foi feito, minha carissima amiga italiana confirmou minhas palavras, realmente Maria poderia ser deportada no momento da denuncia, porque estava ilegal na Itália, apesar de estar apenas à um mês em terras italianas não havia denunciado sua chegada.
Tal fato me deixou ainda mais triste, pois realmente a nuvem de impotência que via nos olhos de Maria era uma realidade.
Maria foi vitima de uma vergonhosa violação de seus direitos humanos, ainda visível nas marcas violetas de seu corpo. O pior è que não podíamos fazer nada para impor a justiça fundamental que deveria existir entre os homens, independente de suas nacionalidades: O RESPEITO.
Certamente Maria, essa mulher brasileira vinda do "Espirito Santo", continuará clandestina na Itália, haverá outras experiências, talvez consiga realizar seu sonho de melhorar sua condição economica, talvez encontre o amor, talvez não. Mas já percebeu que uma parte de sua alma começou a morrer. Provavelmente seu ex-patrão continuará a explorar outras pessoas.
Recordei do grande fluxo de imigrantes italianos que se radicaram no Brasil no século XIX, que morrendo de fome em sua pátria foram substituir o trabalho escravo nas terras brasileiras. Hoje a história se reverteu e infelismente a memoria histórica desse fato è curta.
Mas o mundo dá muitas voltas ...
Existem muitas Marias ...
Peço a Deus que um dia esse comerciante de Como e sua família encontrem a Maria certa.
Dessa história que conheci no dia de Nossa Senhora Imaculada restou um gosto amargo na minha boca, gosto de impotência diante das injustiças. Todavia também reforçou meu desejo de lutar pela dignidade humana.
Meu percurso existencial deixou-me uma lição básica de perseverança, creio que a informação è a alma de proteção ao ser humano.
Temos que denunciar.
Por esse motivo deixo em web esta carta aberta, esperando que caia nas mãos de alguém que tenha o poder, a sensibilidade e a coragem suficiente para tomar uma providencia, ou pelo menos que muitos tomem conhecimento das absurdidades que ocorrem ainda nos dias de hoje.
Escrevo esta carta aberta em português e italiano, principalmente porque gostaria que meus conterrâneo antes de imigrar para um outro país procurem as informações sobre as leis vigentes no país de destinação.
Deixo registrado um grito de alerta, uma sombra de impotência, um gosto de dor que não posso fazer a menos de dividir nesse dia especial dedicado a Maria: Nossa Senhora Imaculada. Pedindo a todas as pessoas que se realmente decidirem podem se unir e fazer a diferença. Divulguem essa carta. O mundo pertence a todos.
Luz ... Sempre mais luz ...
Que esta luz acompanhe as tantas Marias vindas ao primeiro mundo em busca de um lugar digno ao sol.
Mariana Brasil
Para ler a carta em italiano clique aqui:
http://rivistaluce.blog.terra.com.br/
Deixe seu comentàrio aqui, pois seu apoio è fundamental.
Bjs e luz ....
criado por marianabrasil_luz
15:46:30